Resumo Obras Literárias Unicentro
04/09/2018 em INÍCIO
RESUMO DA OBRA LUZIA-HOMEM, DOMINGOS OLÍMPIO


Contexto histórico:


“Luzia-Homem” é uma obra publicada em 1903, que é considerada um clássico, enquadrada no gênero “Ciclo das Secas”, da Literatura Nordestina. Ela narra à triste história do sertão nordestino nos anos de 1877, que viveu mais uma terrível seca, que devastava o gado, trazia escassez nos alimentos, entre outros. “Aproveitando” esse quadro de seca, Domingos soube ver bem os problemas de ordem social e humana surgidos entre os retirantes. Pois se mostrou tocado pela dolorosa miséria e sofrimento que assolava o sertão.


Sobre o autor:

DOMINGOS OLÍMPIO BRAGA CAVALCANTI ou Pojucan, um de seus pseudônimos, é cearense de Sobral. Nasceu em 18 de setembro de 1851 e faleceu em 06 e outubro de 1906, no Rio de Janeiro. Deixou diversos trabalhos, entre romances e peças, a maioria inédita em livro, além de ter trabalhado também como advogado, diplomata, jornalista e parlamentar. É patrono da oitava cadeira da Academia Cearense de Letras. Apresentou candidatura para a Academia Brasileira de Letras, mas foi derrotado pelo poeta Mário de Alencar, filho do romancista cearense José de Alencar, tendo contado apenas com o apoio de Olavo Bilac, que faria um elogioso necrológio de Domingos Olímpio.


Resumo:


A obra trás uma mescla entre a descrição da miséria, os dias de trabalho dos retirantes e a vida de Luzia, conhecida por Luzia-Homem, denominada assim, por sua grande desenvoltura no trabalho braçal. “No entanto todas as atenções estão voltadas para a personagem central, Luzia-Homem, uma retirante que, em busca de sobrevivência, sai da cidade de Ipu na companhia de sua mãe doente.”. “Luzia encontra em Sobral abrigo e emprego na construção da cadeia pública, mas pressentia um perigo iminente, pois era perseguida pelo soldado Crapiúna, o qual nutria uma obsessão pela moça e queria-a possuir a qualquer custo”. “Luzia encontra em Sobral, abrigo e fáceis meios de subsistência; mas pressentia iminente perigo do capricho ou paixão brutal de Crapiúna” (Luzia-Homem, 1984, p.

15). O decorrer da história vai trabalhar com um triângulo amoroso, entre Luzia, Crapiúna e Alexandre, o último, seu fiel escudeiro. “[…] Alexandre, o amigo dedicado e afetuoso, que se lhe deparara entre a multidão de desconhecidos e indiferentes, moço de maneiras brandas, muito paciente, muito carinhoso, com a tia Zefa (mãe de Luzia), passando serões, noites em claro junto dela e da filha, num recato de adoração muda e casta […]” (Luzia-Homem, 1984, p.8). “O escritor busca deixar claro que Luzia gosta de Alexandre, mas ela não admite a afeição que sente por ele. Alexandre acaba indo para a prisão por roubar o empório do qual fazia a segurança. Com isso, Luzia começa a visitá-lo na prisão e Teresinha, uma moça que tinha fugido da família e se prostituído, passa a cuidar da mãe de Luzia, que ficara doente. Ao final do romance, Teresinha, ao ver Crapiúna abrindo uma bolsa com a quantidade de dinheiro roubada do armazém, descobre que o responsável pelo assalto foi Crapiúna e conta para Luzia. Crapiúna é preso e jura vingança. Alexandre é absolvido. Livre, Alexandre propõe a Luzia que partam para viver na serra com sua mãe e os familiares de Teresinha. A mulher aceita e Alexandre parte no outro dia junto à família de Teresinha para procurar moradia. Porém, Luzia, Teresinha, a mãe de Luzia (D. Josefina), Raulino e outros homens combinam de ir na tarde do próximo dia. Teresinha parte para a serra acompanhada pelos homens, que carregavam D. Josefina, e por Luzia, que ia atrás. Chegando à serra, um dos homens indica um caminho mais fácil à Luzia, pois seguiriam pela estrada com D. Josefina. Para se guiar, Luzia seguiu as pegadas secas que Teresinha deixara no barro. Após chegar a um rio, Luzia depara-se com Crapiúna segurando Teresinha pelos braços. Ele avança na direção de Luzia, mas a mulher se defende com unhadas em seu rosto. Porém, o homem crava uma faca no peito de Luzia e desaparece pelo desfiladeiro. Raulino chega e vê o desespero de Teresinha. Ao olhar para Luzia no chão, percebe que a mulher está morta.”.“A importância desse romance reside no fato de ser ele um dos grandes romances regionais de um estilo de época que floresceu na segunda metade do século XIX: O naturalismo. Estilo marcado pela objetividade, concepção de amor baseado na atração sexual, com ênfase nas características negativas das personagens, o Naturalismo legou-nos romances em que é possível perceber a grande influência de Darwin e A Origem das Espécies: o meio ambiente condiciona todos os seres, deixando sobreviver apenas os mais fortes. Por isso, a natureza de todos os seres, inclusive a do homem, seria determinada por circunstâncias externas. A vida interior é reduzida a nada.


Em Luzia-Homem, tais pressupostos são nítidos, basta que o leitor observe a caracterização e trajetória das personagens. Luzia, por exemplo, está fadada a sucumbir, pois num jogo de forças com o vilão, de nada valeu sua força física, assim como não valeram seus bons sentimentos e até a doçura de alma escondida atrás de tantos músculos. Tornou-se, portanto, vítima da fatalidade das leis naturais, que a impediam de ter outro destino. A morte como desfecho vem coroar esse determinismo, pois é a única saída possível para a personagem. Não há a menor possibilidade, nos romances desse estilo, de ocorrer um acaso ou ‘‘milagre’’, comuns em romances românticos, em favor da personagem.


RESUMO DA OBRA “CONTOS DA MONTANHA”, DE MIGUEL TORGA


SOBRE O AUTOR: Escritor português natural, de São Martinho de Anta, Vila Real. Proveniente de uma família humilde teve uma infância rural dura, que lhe proporcionou conhecer a realidade do campo, feita de árduo trabalho contínuo. Após uma breve passagem pelo seminário de Lamego, emigrou com 13 anos para o Brasil, onde durante cinco anos trabalhou na fazenda de um tio, em Minas Gerais, como capinador, apanhador de café, vaqueiro e caçador de cobras. De regresso a Portugal, em 1925, concluiu o ensino liceal e frequentou em Coimbra o curso de Medicina, que terminou em 1933. Exerceu a profissão de médico em São Martinho de Anta e em outras localidades do país, fixando-se definitivamente em Coimbra, como otorrinolaringologista, em 1941. Miguel Torga era ligado inicialmente ao grupo da revista Presença.


CONTEXTO HISTÓRICO:

Miguel Torga faz parte do Presencismo, movimento literário de grande relevância. O Presencismo, também conhecido como a segunda fase do modernismo português, teve início no ano de 1927 com a publicação da Revista Presença: Folha de Arte e Crítica. Revista Presença reuniu aqueles que não participaram do Orfismo em virtude de divergências estéticas. Ao contrário do Orfismo, que tinha como objetivo apresentar uma poesia que rompesse com os padrões literários vigentes, chocando e provocando a crítica e público, sobretudo a burguesia, o Presencismo tinha como ideal interrogar o sentido da existência humana.


RESUMO DA OBRA:

Contos da Montanha remete o leitor para um espaço situado no interior, composto por 23 contos, neste livro Miguel Torga apresenta aos seus leitores textos que representam descrições do comportamento humano, das suas emoções e dos seus sentimentos. O leitor da obra deve voltar sua atenção para o que existe de comum nos 23 contos, que está altamente voltado para as ações humanas, pois, Miguel Torga traz fortes traços do humanismo em suas obras, dentro dos contos as pessoas são heróis e sobreviventes da suas vidas de miséria, de fome e de sofrimentos.


Os 23 contos são: A Maria Lionça; Um roubo; Amor; Homens de Vilarinho; O Cavaquinho; A ressurreição; Um filho; A promessa; Maio moço; O bruxedo; A paga; Inimigas; Solidão; A ladainha; O vinho; O lugar de sacristão; Justiça; A vindima; Um coração desassossegado; A revelação; O desamparo de S. Frutuoso; O castigo; O pé tolo.


Vejamos resumidamente três dos vinte e três contos:


“A Maria Lionça”

Maria Lionça é a personagem principal deste conto. Maria é uma mulher respeitada, amada, pobre, bonita, forte. Ela viveu em Galafura durante setenta anos onde encontrou o amor da sua vida, Lourenço Ruivo, com quem se casa e tem um filho, Pedro. Lourenço acaba lhe provocando um grande desgosto de amor, pois Ruivo foge para o Brasil sem dar noticias. Quinze anos depois ela acaba o perdoando quando ele volta à terra muito doente, onde morre passado pouco tempo, Maria fica de novo sozinha cuidando do filho, que também acaba adoecendo e por consequência morre nos braços da mãe e ela morre também ao final do conto, depois de uma vida dedicada a ajudar os outros.


”O cavaquinho”

É narrada a história de uma família muito pobre que vivia num casebre a “três léguas” de Vilela, onde o pai, chefe de família, promete uma prenda de Natal ao filho de 10 anos, pelo seu bom desempenho no primeiro exame da escola. A criança estava entusiasmada e bastante curiosa em saber o que iria receber, uma vez que já conhecia os fracos rendimentos dos pais e aquela situação, o fato de poder receber algo novo e “gratuito”, deixava-o fascinado. Porém, na noite em que, supostamente, iria descobrir o que seria a sua recompensa, recebe a triste noticia de que o pai falecera com uma facada, perto de um cavaquinho que lhe trazia. Um conto que começa por uma notícia boa (o exame do filho e promessa da oferta de uma prenda) e termina com a morte do pai, de forma dramática.

“Homens de Vilarinho”

Neste conto Torga conta a história de Firmo, personagem cuja principal marca é a infidelidade à terra natal. Nem o fato de ter mulher e filhos a zelar o prendia ao território. Aliás, as suas visitas a Vilarinho duravam pouquíssimo tempo. Foram inúmeras as tentativas do padre João, pároco do povoado, para convencê-lo da necessidade de corrigir-se, mas o “desejo de mundos” que tinha Firmo, não o permitia ficar. Por possuir esse caráter, Firmo é caracterizado no conto como aquele que “desorientava Vilarinho”. Por não cultivar o sentimento de pertença à terra nem à casa, de maneira mais específica, o seu lugar na narrativa é a de um desordenado, um desertor.


REFERÊNCIAS:


TORGA, Miguel. Contos da montanha. 9. ed. Lisboa: Dom Quixote, 1999. 214p. (Biblioteca de bolso)

RESUMO DA OBRA “PONCIÁ VICÊNCIO”, DE CONCEIÇÃO EVARISTO.


A escritora Conceição Evaristo nasceu em Belo Horizonte, em 1946, numa favela no alto da Avenida Afonso Pena, como era uma área valorizada da capital, a população que lá vivia foi removida para outros bairros da cidade e da área metropolitana, para que novos prédios e ruas fossem construídos na região. Conceição carrega nas memórias acontecimentos e pessoas do seu tempo de infância, algumas vezes, participam de suas narrativas. Dona Joana, sua mãe, teve nove filhos, era doméstica e lavava roupas para fora, mesmo assim, encontrava tempo para lhes contar histórias que também fazem parte do acervo de Conceição Evaristo, que se diz nascida cercada delas. Enquanto estudava, a autora trabalhou de doméstica na capital mineira. Em 1971, formou-se professora no antigo curso Normal e depois se mudou para o Rio de Janeiro, onde foi aprovada em um concurso municipal para magistério e, posteriormente, no curso de Letras na Universidade Federal daquele Estado. Conceição Evaristo é uma das principais escritoras da literatura Brasileira e Afro-brasileira atualmente, em sua literatura traz importantes reflexões sobre as questões de raça e de gênero, com o propósito de revelar a desigualdade e de recuperar uma memória sofrida da população afro-brasileira em toda sua riqueza e potencialidade. A obra Ponciá Vicêncio é o primeiro romance de Conceição Evaristo. Nela são narrados problemas do cotidiano das mulheres afrodescendentes sob um ponto de vista claramente feminino e negro.


RESUMO: A obra narra a trajetória de Ponciá Vicêncio, uma mulher negra, desde sua infância até a idade adulta. Ponciá mora com a mãe, Maria Vicêncio, na Vila Vicêncio, no interior do Brasil, onde vive numa população de descendentes de escravos. Seu pai e seu irmão trabalham no cultivo da lavoura da família Vicêncio, que é proprietária das terras onde todos moram e trabalham, ademais são donos do sobrenome dos habitantes da vila, como a família de Ponciá. A narrativa feita em flashbacks, descreve a infância da menina na vila junto da mãe e do artesanato com o barro que elas fazem. Narrado em terceira pessoa, somos levados ao íntimo dos personagens, assim, conhecemos a felicidade da menina Ponciá, que brincava de passar por debaixo do arco-íris com medo de mudar de sexo, segundo uma crendice popular, era diferente desde a infância, principalmente pela semelhança física com o avô Vicêncio. Este, quando escravo, teve um momento de loucura e grande indignação com a escravidão, mata a esposa e tenta o suicídio se mutilando, corta o próprio braço, esse braço cotó que desde pequena Ponciá imita, apesar de quando o avô faleceu, apenas era uma criança de colo, ela modela um boneco de barro idêntico a ele, que deixa mãe espantada e por esse motivo todos dizem que ela carrega a herança do avô. Depois de perder o pai, Ponciá parte para a cidade grande em busca de uma vida melhor, viaja de trem e ao chegar à cidade sem ter para onde ir, passa uma noite na porta da Igreja e consegue um emprego de doméstica. Durante o tempo que junta dinheiro para compra um barraco e trazer a mãe e o irmão para morar com ela na cidade, seu irmão Luandi decide migrar para a cidade grande, deixando sua mãe triste. Ao chegar na cidade, o rapaz arruma emprego de faxineiro na delegacia, com a ajuda do soldado Nestor, negro que conheceu ao chegar na estação de trem e serve de inspiração para Luandi, que sonha em ser soldado. A mãe, Maria Vicêncio, sozinha na casa, decide viajar pelas vilas sem rumo até que chegue a hora de encontrar os filhos. Nisso, Ponciá volta à vila buscar sua mãe e o seu irmão, mas não entra ninguém, apenas o boneco de barro do avô guardado no fundo de um baú, ao visitar Nêngua Kainda, descobre que encontrará a mãe e o irmão e cumprirá a herança. Ao retornar à cidade, ela se junta a um homem que conhece na favela, no início apaixonada, mas depois sofre agressões físicas, causadas pelo seu estado de apatia, que deu pelas perdas sofridas: a ausência dos familiares e os sete abortos. Enquanto isso, Luandi aprende a ler e escrever, ficando cada vez mais próximo de realizar o sonho de ser soldado. Conhece Bilisa, uma mulher negra, que veio para a cidade em busca de uma vida melhor, mas ao ser roubada na casa onde trabalhava, torna-se prostituta, os dois se apaixonam e fazem planos. No entanto, ela é assassinada brutalmente por Negro Climério, fato que interrompe os planos do casal. Anteriormente, Luandi empresta uma farda do soldado Nestor e retorna à vila para encontrar a mãe, mas não encontra ninguém, apenas uma pista: o sumiço do boneco do avô. Ele deixa seu endereço com Nêngua Kainda para que esta o entregue à mãe e retorna à cidade. Sua mãe, vai ao encontro dele na cidade grande, ao chegar na estação de trem, encontra um soldado e entrega o bilhete com o endereço do filho, o soldado era Nestor, que leva ela até a delegacia onde está Luandi. Na favela, Ponciá, delira com saudades do barro, decide retornar à cidade natal, e na estação de trem reencontra a família e retornam juntos para a Vila Vicêncio, onde Ponciá faz o cumprimento de sua herança ancestral, junto do rio, do arco-íris e do barro.





RESUMO DA OBRA “QUARTO DE DESPEJO”, DE CAROLINA MARIA DE JESUS


Contexto histórico:

Carolina Maria de Jesus escreveu os diários que compõem a obra entre 1955 e 1960, quando foi finalmente editado e publicado pelo repórter Audálio Dantas, que havia sido encarregado de escrever


uma matéria sobre a crescente favela ao redor do Rio Tietê, o Canindé, e acabou por encontrar a escritora e também catadora de papel. Os textos foram produzidos sob o governo de Juscelino Kubitschek, o espírito de “50 anos em 5”, a construção de Brasília e inúmeras outras obras simbolizavam a expansão e crescimento da infraestrutura do Brasil, no entanto, assim como o país se desenvolvia, mais e mais pessoas eram marginalizadas e aglutinadas em favelas sob condições miseráveis, vide o Canindé, lar de Carolina Maria de Jesus e os sofrimentos que relata em seus cadernos.

Resumo da obra:

Quarto de despejo (1960) consiste de um compilado de diários editados por Audálio Dantas, escritos por Carolina Maria de Jesus de maneira intermitente ao longo de 5 anos (entre 1955-1960). Carolina criou sozinha 3 filhos: João José, José Carlos e Vera Eunice na favela do Canindé trabalhando como catadora de papel, e vendendo materiais recicláveis, apesar de ter estudado apenas 2 anos, ela prezava muito pela educação dos filhos e os fazia ir à escola mesmo com medo da violência da favela. Nunca foi casada por escolha, ela retrata dois envolvimentos amorosos (Manoel e Raimundo), não fica com nenhum pois afirmava que conseguia sustentar os filhos sem precisar de homem nenhum. Outro traço sempre presente nos diários é a fome, Carolina muitas vezes sente-se doente e fraca devido à pobre alimentação, ou às vezes nenhuma; fome que deixa o mundo triste e amarelo, segundo a escritora. O leitor se sente tocado ao ver a angústia de Carolina por não conseguir juntar dinheiro o suficiente para comprar comida para alimentar os filhos, e emociona-se igualmente ao ler sobre a felicidade estampada no rosto das crianças quando a mãe conseguia comprar arroz, feijão e carne. Em momentos de maior dificuldade, quando não havia dinheiro algum, a família comia restos encontrados no lixão. Além de seus próprios sofrimentos, Carolina escreve sobre a realidade na favela, ela toca em assuntos presente no seu cotidiano, como a violência doméstica, muitas vezes causada pelo alcoolismo, e brigas entre vizinhos. A escritora, como sempre foi contra todo tipo de violência sempre chamando a polícia era chamada pelos vizinhos de intrometida. Carolina Maria de Jesus, preocupava-se com a situação político- social do país, falando em nome de todos os marginalizados do país, seus diários são a melhor descrição de realidade das favelas brasileiras da época (ou até mesmo das atuais). Após a publicação de Quarto de despejo (1960), que foi traduzido para 13 línguas, Carolina mudou-se para uma casa no subúrbio, e se por um lado Carolina conquistou o apreço dos leitores com sua escrita ora coloquial, ora rebuscada, conquistou também o desprezo de seus vizinhos do Canindé por escrever “coisas ruins” sobre eles.



RESUMO DA OBRA “RELATO DE UM CERTO ORIENTE”, DE MILTON HATOUM


Relato de um certo Oriente, de 1989, é um relato composto de outros relatos distribuídos em oito capítulos, os quais se assemelham ou resgatam a forma oral do narrar, em que uma história é evocada para completar outras à medida que é um ou outro narrador quem detém a posse de certa informação que vai esclarecer uma outra apontada anteriormente ou outra que ainda virá.

A trama se passa numa cidade marcada pelo hibridismo cultural e atravessada pelas idéias de fronteira e trânsito: Manaus, uma capital que se separa da floresta pelas águas fluviais e se situa num estado que faz divisa com três outros países. No livro também estão presentes a diversidade de costumes, línguas, e a convivência entre indivíduos de diferentes nacionalidades.

Uma mulher visita a cidade de sua infância depois de ter passado quase 20 anos fora, e a partir dos acontecimentos que se desenrolam após sua chegada, ela vai relembrando e descobrindo histórias do seu passado e da família que a criou. Ao retornar a Manaus, após ter permanecido internada em uma clínica de repouso em São Paulo, a narradora chega justamente na noite que precede o dia da morte de Emilie, sua mãe adotiva.

Inicia-se, então, um outro trabalho, o de recuperar Emelie através da memória, não apenas a sua, mas também a de outros personagens que entrelaçaram seu percurso de forma significativa ao daquela família: o filho mais velho, o único a aprender o árabe e que também irá se distanciar de todos, ao mudar-se para o sul; o alemão Dorner, amigo da família e fotógrafo; o marido de Emelie, recuperado, mesmo depois de morto, através da memória de Dorner, e Hindié Conceição, amiga sempre presente, a partilhar com a conterrânea a solidão da velhice. Muitas vozes a compor um mosaico, nem sempre ordenado, nem sempre claro naquilo que revela, mas sobretudo rico em pequenos detalhes de extrema significação.

No intuito de enviar uma carta ao irmão, que se encontra em Barcelona, a fim de lhe revelar a morte de Emilie, acaba escrevendo um relato com depoimento de membros da família e de amigos, conforme o irmão lhe pedira na última correspondência que lhe enviara. Esses testemunhos proporcionam uma verdadeira viagem à memória, com regresso à infância e aos fatos marcantes da vida familiar.

Logo no primeiro capítulo, a narradora nos descreve uma parte da casa na qual acabara de acordar, em Manaus. A descrição das duas salas contíguas é repleta de marcas identificatórias do Oriente, indicando uma representação estilizada desse território: tapete de Isfahan, elefante indiano e reproduções de ideogramas chineses são alguns dos objetos de consumo dos ocidentais, tomados


como símbolos, que estão presentes nos cômodos.

As histórias falam das possibilidades e das dificuldades do trabalho com a memória, das tensões e da convivência de culturas, religiões, línguas, lugares, sentimentos e sentidos diferentes das personagens em relação ao mundo. A casa de Emilie, matriarca da família na narrativa do Relato, é um microcosmo onde estas tensões aparecem e são vividas cotidianamente.O que mantêm a tensão no romance é a narrativa centrada em incidentes – o atropelamento de Soraya Ângela, o afogamento de Emir.

A obra, em sua estrutura e estratégia de composição, parece transitar e oscilar entre a narração, em que a figura do narrador é extremamente importante e o relato é feito principalmente com base nas tradições orais, como uma tentativa de rememoração das experiências coletivas do passado, e o romance, que apareceria como um gênero literário decorrente das transformações da sociedade capitalista, que destrói cada vez mais a possibilidade que a experiência comum viva e se revele no relato dos narradores.


RESUMO DA OBRA “TODA POESIA”, DE PAULO LEMINSKI


No Livro Toda Poesia é possível encontrar tudo que foi escrito e publicado por Leminski. O texto é curto, mas possui muita profundidade naquelas palavras. Caminhar pelas páginas do livro é viajar pelos sentimentos que perpassam cada poesia. Deparamos com temas sobre o amor, a vida, alegrias, medos, tristezas são assuntos que permeiam o cotidiano de cada um. Quem é Paulo Leminski?

Poeta, escritor, crítico literário, letrista. Sua poesia deixou marcas, porque ele inventou uma maneira própria de escrever (trocadilhos, brincadeiras, ditados populares e influência do haicai), como também se utiliza muito das gírias, palavrões de uma forma bem interessante. Paulo Leminski Filho nasceu em 24 de Agosto de 1944. Filho de Paulo Leminski e Áurea Pereira Mendes. Ingressa aos 12 anos no Mosteiro de São Bento (SP) e aprende latim, teologia, filosofia e literatura clássica. Entretanto em 1963, abandona a vocação religiosa. Participa da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda, no mesmo ano. Nessa semana conhece Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos – criadores do movimento Poesia Concreta. Paulo Leminski faleceu em Curitiba em 7 de junho de 1989.


Em sua trajetória, Leminski aproxima-se de Augusto de Campos. Essa aproximação rende a participação na Revista Invenção, onde publicará seus primeiros poemas. A influência do Concretismo pode é perceptível na sua disposição poética para o humor, pois entre os elementos do movimento é o exercício de (des) montagem de palavras sobre o papel que coloca em jogo as relações sintáticas e semânticas. Esses traços, do concretismo, na poesia leminskiana traz a eminência do rigor formal, da estrutura que acarreta a construção do poeta crítico.


Leminski recebe influencias dos poetas modernas como Mallarmé, Rimbaud e vários outros que vivenciaram posturas de ruptura, além de que o poeta é formado em um contexto de contracultura. A linha do poeta está voltada para a poética da resistência, da negação da modernidade. Essa resistência mostra um elemento que segue para o espírito das vanguardas (concretismo). Podemos citar as posturas marginais que encontramos em suas poesias, foi absorvido entre os concretos e equilibrados com o seu despojamento contracultural. Toda Poesia é a coletânea completa das poesias que fogem dos clássicos que sempre vemos nas escolas, no dia a dia.


RESUMO DA OBRA "VÁRIAS HISTÓRIAS", DE MACHADO DE ASSIS

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839, na cidade do Rio de Janeiro. Filho de família pobre e mulato, sofreu preconceito, e perdeu a mãe na infância, sendo criado pela madrasta. Apesar das adversidades, conseguiu se instruir. Em 1856 entrou como aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional. Posteriormente atuou como revisor, colaborou com várias revistas e jornais, e trabalhou como funcionário público. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. Algumas

de suas obras sãoMemórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, O Alienista, Helena, Dom Casmurro e Memorial de Aires. Faleceu em 29 de setembro de 1908.

Contexto Histórico

Várias histórias foi publicado em 1896, fazendo parte do período realista de Machado de Assis. Os contos da obra são profundamente marcados pela análise psicológica das personagens, além da erudição e intertextualidade que transparecem, como por ex., referências à música clássica, a clássicos da literatura, bem como a histórias bíblicas. Muitos apresentam um tom pessimista. A maior parte das

histórias se passa no Brasil do séc. XIX, sobretudo na segunda metade do século, de modo que os contos retratam bem o contexto sociocultural da época.

A Obra

Várias histórias é uma coletânea de 16 contos. Segue-se o resumo das histórias.

“A cartomante” é sobre o triângulo amoroso envolvendo Vilela, Camilo e Rita. Vilela e Camilo são amigos. Vilela e Rita são casados. Rita e Camilo são amantes. Rita, certa vez, consulta uma cartomante sobre Camilo, a qual a alivia dizendo que Camilo a ama. Um dia, Camilo é intimado por Vilela a ir à casa do casal. Apesar do receio, vai. Por conta de um acidente, ele para em frente da casa da cartomante. Resolve então consultá-la. Ela diz que nada de mal acontecerá. Camilo chega à casa de Vilela, mas a previsão da cartomante se mostra equivocada: Rita está morta no chão, e Vilela o mata.

O segundo conto é “Entre santos”, em que um velho padre narra um milagre que viu anos atrás. Numa noite, cinco santos da igreja, vivificados, contam entre si as orações feitas pelos fiéis no dia. A principal narrativa é de S. Francisco de Sales: é sobre Sales, um avaro e usurário, cuja mulher está à beira da morte, e vai à igreja para pedir intercessão divina para ela. Por sua disposição de avaro e usurário, prefere prometer mil padre-nossos e mil ave-marias ao invés de gastar dinheiro com alguma outra promessa.

“Uns braços” é sobre a paixão juvenil de Inácio, um rapaz de quinze anos, por D. Severina, esposa de seu patrão, Borges. D. Severina acaba descobrindo a paixão do jovem, mas mantém o segredo. Num dia, estando ela sozinha com o rapaz, que dormia, dá um beijo nele. Mas ninguém descobre. No fim, Borges despede o rapaz.

“Um homem célebre” é a história de Pestana, compositor de polcas famoso nas redondezas. Suas polcas são tocadas por toda a cidade, mas o que ele mais quer é se equiparar aos grandes compositores, como Mozart. Pestana se casa com uma viúva cantora, e acredita que com a mulher conseguirá realizar seu sonho. Mas sua ambição de compor algo grande sempre fracassa.

Em “A desejada das gentes”, um conselheiro conta sua história de juventude com Quintília, a jovem mais bonita da cidade. Ela era muito bonita, atraindo muitos pretendentes, mas recusa todos. O conselheiro e Quintília se tornam íntimos amigos. Ela promete nunca se casar, mas acaba se casando com ele quando está à beira da morte.

“A causa secreta” é a história de Garcia, Fortunato e Maria Luísa. Garcia e Fortunato são amigos. Fortunato é casado com Maria Luísa. Fortunato funda uma casa de saúde, onde trabalha muito. Ele é sádico, fazendo, por ex., experimentos com animais. Garcia se apaixona por Maria Luíza, mas ela não trai seu marido.

“Trio em lá menor” é dividido em quatro partes como uma sonata. É a história de um trio: uma moça, Maria Regina, e seus dois pretendentes, Maciel e Miranda. Ela é apaixonada pelos dois, e os dois por ela, mas ela não se decide por um apenas; ao contrário, se mantém fantasiando um homem perfeito. No fim, ela acaba sozinha.

Em “Adão e Eva”, o juiz-de-fora Veloso conta uma história alternativa do Jardim do Éden. Segundo Veloso, o mundo é criação conjunta de Deus com o Tinhoso, tendo este começado a criar. O homem reúne instintos maus e a alma divina. Odiando Adão e Eva, o Tinhoso os tenta, por meio da serpente, para comer da árvore da ciência do bem e do mal. Adão e Eva rejeitam a tentação, e são levados para morar no céu.

Em “O enfermeiro”, Procópio conta sua história como enfermeiro do coronel Felisberto. O coronel era conhecido por sua crueldade e maus-tratos aos empregados. O coronel trata Procópio muito mal. Procópio acaba matando o coronel não propositalmente. Procópio sente remorso, mas ninguém descobre, e ele se torna herdeiro da fortuna de Felisberto, uma vez que o coronel o nomeara em seu testamento.

“O diplomático” é a história de Rangel, chamado de “o diplomático”, um quarentão solteiro que anseia por se casar. Numa comemoração de S. João, ele tem interesse por Joaninha, filha do dono da casa.

Mas chega inesperadamente um rapaz, Queirós, que atrai a atenção de todos, inclusive de Joaninha.

Isso frustra Rangel. Joaninha fica interessada por Queirós, e Rangel a perde para ele.

Em “Mariana”, Evaristo volta, depois de vários anos, da França para o Brasil, ao saber do fim da monarquia. Ele decide rever Mariana, seu amor de juventude, esperando que ela ainda o ame. Mas ele descobre que Mariana o não ama mais. Ela se casou, e ama seu marido, Xavier, que se encontra então à beira da morte. Ele volta à França.

Em “Conto de escola”, o menino Pilar recebe de Raimundo, filho do professor, uma moeda de prata

para ajudá-lo nas matérias. No entanto, seu colega, Curvelo, dedura-os para o professor, e ambos, Pilar e Raimundo, são castigados.

“Um apólogo” é o conto de um novelo de linha e de uma agulha da costureira de uma baronesa, que discutem sobre quem é mais importante na costura. A agulha se vangloria por ir à frente enquanto a costureira trabalha. Mas, no fim, é a linha que vai à festa na roupa da baronesa, enquanto a agulha serve só para abrir caminho para a linha.

Em “D. Paula”, Venancinha e Conrado, casados, brigam por conta do envolvimento de Venancinha com

o filho de Vasco Maria Portela. A tia do casal, D. Paula, intercede para conciliá-los. D. Paula descobre que o Vasco pai é o mesmo com que se envolveu na juventude, e, enquanto aconselha a sobrinha, relembra o passado.

“Viver!” é a história de Ahasverus, o último homem. Ahasverus foi condenado a vagar eternamente

pelo mundo por ter injuriado Jesus, quando Ele passava por sua casa para ser crucificado. Ahasverus odeia a vida por ver tanto sofrimento, mas encontra Prometeu, que o convence de que o mundo tem sua face boa e que haverá um novo mundo, em que Ahasverus será o rei. Todavia, tudo não passa de delírios de Ahasverus.

Em “O cônego ou Metafísica do estilo”, um cônego tenta escrever um sermão. Enquanto isso, o narrador expõe a “metafísica do estilo”: segundo ele, todas as palavras têm sexo, sendo os

substantivos masculinos, e os adjetivos, femininos. Eles se amam, e sua união forma um dado estilo. A busca por inspiração, que o cônego faz durante uma pausa, é vista como um mergulho na inconsciência, sendo seu conteúdo os obstáculos para a união dos casais de palavras.



RESUMO DA OBRA “VIAGEM NO ESPELHO”, DE HELENA KOLODY


A poeta Helena Kolody, filha de imigrantes ucranianos, é um dos nomes mais expressivos da poesia contemporânea paranaense. Nascida no dia 12 de outubro de 1912, com apenas 16 anos seu primeiro poema fora publicado, intitulado “A Lágrima”. Com 20 anos de idade Helena iniciou a carreira de professora.


Seu primeiro livro publicado, “Paisagem Interior”, foi dedicado a seu pai, em sequência foram publicados: “Música Submersa”, “A Sombra do Rio”, “Vida Breve”, “Era Espacial” e “Trilha Sonora”, “Tempo”, “Correnteza”, “Infinito Presente”, “Sempre Palavra”, “Poesia Mínima”, “Viagem no Espelho”, “Ontem Agora” e “Reika”. Nas primeiras obras percebe-se que a poeta vai se encaminhando cada vez mais para a poesia íntima, confessional e auto indagadora em que predomina o subjetivismo, a introspecção e o mergulho no mundo interior.


Entretanto, em suas obras posteriores, nota-se que aos poucos seus poemas vão se tornando sintéticos, condensados. Vale destacar que já em sua primeira obra são publicados três haicais: “Prisão”, “Arco-Íris” e “Felicidade”. O haicai é uma forma de poesia japonesa, caracterizado por seus pequenos poemas de três versos, com cinco, sete, e cinco sílabas poéticas sucessivamente. Conhecida como grande poetisa, que conciliava perfeitamente a experiência da subjetividade com a objetividade, faleceu em 2004 aos 92 anos de idade.


Obra: “Viagem no Espelho” é uma antologia da poetisa Helena Kolody, reunindo livros publicados pela autora, de 1941 a 1986. Essa produção literária é considerada uma viagem ao contrário, como se fosse um espelho, pois os poemas aparecem em ordem inversa, iniciando-se pelos mais recentes até chegar aos primeiros. Justificando assim o título da obra, que representa a poesia breve, portanto, nela predominam os poemas curtos.


Simpatizante do haicai, Helena tem o poder de transformar sua sabedoria de vida em poemas belíssimos, ainda que seus temas possam ser densos e trágicos. O “eu lírico” em viagem no espelho vê a vida como um mistério e o simples fato de existir o fascina. A concentração verbal dos haicais kolodyanos trabalha com muito lirismo e apresenta uma sonoridade rítmica que é marcada pelo processo de elaboração criativa e lúdica. Os poemas de Reika exploram a metapoesia, ou seja, o poema diante de si mesmo. Kolody, como poetiza vigorosa, concilia perfeitamente subjetividade e objetividade, emoção e razão, com poemas densos de significado, numa atualização constante em relação à modernidade.


Nessa obra, seus poemas são sugestivos e cheios de imaginação, intelectuais e emotivos, sintetizados e modernos, marcados por uma procura semântica inventiva de múltiplos sentidos. Percebemos a presença eminente de sentimentos de fugacidade, transitoriedade, temporalidade, mutabilidade, esperança e procura. Cada livro com características próprias, formando um todo cheio de significados. A linguagem é bastante metafórica e simbólica. Possui um transcendentalismo, um forte sentimento de humildade e reconhecimento de um atavismo ancestral.


O temperamento da autora ao escrever, oscila entre soltar-se e reprimir-se. Seus pensamentos de natureza selvagem embatem com a religião e a opressão de sua época, em um desejo constante de liberdade. Aqui ela fala de amor e paixão por meio de um “eu lírico” sentimental. Os poemas são longos e predominantes da forma clássica dos versos regulares. Há também uma forte conexão sanguínea e espiritual com sua pátria de origem (Ucrânia), ela eleva a história do seu povo e vemos o tema da migração definida pelo “eu lírico” como uma luta dolorosa. Portanto, essa obra é indicada para aqueles que queiram obter a coletânea em apenas um volume, e explorar o mundo da poetisa paranaense de uma forma única.


O Pagador de Promessas – Dias Gomes

1. Aspectos estruturais

Trata-se de um texto escrito para teatro, ou seja, para ser levado ao palco, ser encenado. A peça é dividida em três atos, sendo que os dois primeiros ainda são subdivididos em dois quadros cada um. Após a apresentação dos personagens, o primeiro ato mostra a chegada do protagonista Zé do Burro e sua mulher Rosa, vindos do interior, a uma igreja de Salvador e termina com a negativa do padre em permitir o cumprimento da promessa feita. O segundo ato traz o aparecimento de diversos novos personagens, todos envolvidos na questão do cumprimento ou não da promessa e vai até uma nova negativa do padre, o que ocasiona, desta vez, explosão colérica em Zé do Burro. O terceiro ato é onde as ações recrudescem, as incompreensões vão ao limite e se verifica o dramático desfecho.

2. Enredo
Primeiro ato. Primeiro quadro.

A ação da peça tem início nas primeiras horas da manhã [4 e meia], numa praça, em frente a uma igreja, em Salvador. O personagem denominado Zé do Burro carrega uma cruz e se aloja na frente da igreja. A seu lado Rosa, sua mulher, apresentada como tendo 'sangue quente' e insatisfação sexual. Zé espera a igreja abrir para cumprir sua promessa, feita a Santa Bárbara. Aparecem no lugar, algum tempo depois, Marli e Bonitão: ela prostituta; ele, gigolô. Há uma clara relação de exploração e dependência entre eles. Encontrando Zé, Bonitão dirige-se a ele e percebe ser alguém ingênuo. Rosa, por sua vez, conversando com o gigolô, queixa-se de Zé, contando que ele, na sua promessa, dividiu suas terras com lavradores pobres. Percebendo a ingenuidade, Bonitão propõe-se a providenciar um local para Rosa descansar. Zé não só aceita, como incentiva. Saem os dois, Bonitão e Rosa, de cena. Segundo quadro. Aos poucos, começa o movimento ao redor da praça. Aparecem a Beata, o sacristão e o Padre Olavo, titular da igreja. Zé explica a promessa: Nicolau foi ferido com a queda de uma árvore; estando para morrer, Zé fez a promessa. O burro - Nicolau é um burro! - salva-se. Ingenuamente, Zé revela ter usado as rezas de Preto Zeferino e feito a promessa num terreiro de candomblé, a Iansã, equivalente afro de Santa Bárbara. O padre fica escandalizado. Estabelece-se o conflito. O sincretismo Iansã Santa Bárbara, natural para Zé do burro, é um grandioso pecado para o padre. A situação agrava-se com a revelação da divisão de terras. Impasse. O padre manda fechar a igreja e proíbe o cumprimento da promessa. Zé do burro fica atônico. Segundo ato. Primeiro quadro.

Duas horas mais tarde, já a movimentação no lugar é intensa. O Galego, dono do bar, abriu seu estabelecimento. Surgem Minha Tia, vendedora de acarajés, carurus e outras comidas típicas, Dedé Cospe-Rima, poeta popular, ao estilo repentista e o Guarda. Zé do burro quer cumprir a promessa. O Guarda tenta intervir. Rosa reaparece com 'ar culpado'. Chega o Repórter. Seguindo a linha do oportunismo sensacionalista, o repórter quer tirar vantagens da história de Zé do Burro. Quer torná-lo

um mártir, para virar notícia. Enquanto isso descobrese que Rosa transou com Bonitão. Marli faz um pequeno escândalo, denunciando a história Rosa-Bonitão.

Segundo quadro.

Três da tarde, Dedé oferece poemas para Zé, a fim de derrotar o Padre. Aparecem, em momentos subseqüentes, o capoeirista Mestre Coca e o policial, o Secreta, chamado por Bonitão, ficando ambos, por enquanto, nas cercanias. Zé começa a perder a paciência e arma uma gritaria. O padre reage. Chega o Monsenhor, autoridade da igreja, propondo a Zé uma solução: ele, Monsenhor, na qualidade de representante da Igreja, pode liberar Zé da promessa, dando-a por cumprida. Zé não aceita, dizendo que promessa foi feita à Santa e só ela poderia liberá-lo. Segue o impasse. Zé explode novamente e avança com a cruz sobre a Igreja. O padre fecha a porta. Zé, já desesperado, bate com a cruz na porta. O drama é total. Terceiro ato. Entardecer. Muita gente na praça e nos arredores da Igreja. Há uma roda de capoeira. O Galego, oportunista, oferece comida grátis a Zé, pois a história está trazendo movimento ao seu bar. O Secreta, no bar, avisa que a polícia prenderá Zé, ameaçando os capoeiristas, caso eles interfiram. Marli volta. Ofende Rosa, ofende Zé. O protagonista parece mudar de atitude. Resolve ir embora 'à noite'. Rosa quer ir embora já. Conta que Bonitão avisou a polícia. Retorna o repórter, que tenta montar um verdadeiro circo em torno do Zé, com o objetivo de vender o jornal. Chega Bonitão e convida Rosa para ir com ele. Zé pede a ela para ficar. Rosa hesita, a princípio, mas, em seguida, vai com Bonitão. Mestre Coca avisa Zé sobre a chegada da polícia. Zé está perplexo: 'Santa Bárbara me abandonou'. Da igreja saem o Sacristão, o Guarda, o Padre e o Delegado. Tensão da cena acentua-se. Zé ainda tenta, ingênua e inutilmente, explicar alguma coisa. Ao ser cercado, puxa uma faca. As autoridades reagem. Os capoeiristas também. Briga e confusão. De repente, um tiro espalha gente para

todos os lados. Zé é mortalmente ferido. Mestre Coca olha para os companheiros, que entendem a mensagem. Os capoeiristas tomam o corpo do Zé colocam-no sobre a cruz e, ignorando padre e polícia entram na igreja, carregando a cruz.

3. Comentário

A peça de Dias Gomes tem nítidos propósitos de evidenciar certas questões socio-culturais da vida brasileira, em detrimento do aprofundamento psicológico de seus personagens. Assim, ganha força no drama a visão crítica quanto:

a] à intolerância da Igreja católica, personificada no autoritarismo do Padre Olavo, e na insensibilidade do Monsenhor convocado a resolver o problema;

b] à incapacidade das autoridades que representam o Estado - no episódio, a polícia - de lidar com questões multiculturais, transformando um caso de diferença cultural em um caso policial;

c] à voracidade inescrupulosa da imprensa, simbolizada no Repórter, um perfeito maucaráter, completamente desinteressado no drama do protagonista, mas muito interessado na repercussão que a história pode ter;

d] ao grande fosso que separa, ainda, o Brasil urbano do Brasil rural: Zé do Burro não consegue compreender por que lhe tentam impedir de cumprir sua promessa; os padres, a

polícia, a imprensa não conseguem compreender quem é Zé do Burro, sua origem ingênua,com outros códigos culturais, outras posturas. Além disso, a peça mostra as variadas facetas
populares: o gigolô esperto, a vendedora de quitutes, o poeta improvisador, os capoeiristas.

O final simbólico aponta em duas direções. Em primeiro lugar a morte do Zé do Burro mostrase com fim inevitável para o choque cultural violento que se opera na peça: ninguém, entre

as autoridades da cidade grande, é capaz de assimilar o sincretismo religioso tão característico de grandes camadas sociais no Brasil, especialmente no interior nordestino. Em segundo lugar, a entrada dos capoeiristas na igreja, carregando a cruz com o corpo, sinaliza para rechaçar a inutilidade daquela morte: os populares compreenderam o gesto de Zé do Burro.

Laços de Família

(Clarice Lispector)

Incluï-se entre os melhores livros de contos de nossa Literatura. São 13 contos centrados,tematicamente, no processo de aprisionamento dos indivíduos através dos "laços defamília", de sua prisão doméstica, de seu cotidiano. As formas de vida convencionais e estereotipadas não se repetindo de geração para geração , submetendo-se as consciências e as vontades.A dissecação da classe média carioca resulta numa visão, desencantada e descrente dos liames familiares, dos "laços" de convenção e interesse que minam a precária união familiar.

Os três mais conhecidos são Amor, Uma galinha, e Feliz Aniversário.
"Devaneio e embriaguez duma rapariga'

Uma típica senhora portuguesa casada, certo dia ao encontrar-se defronte ao espelho a mirar-se, estando só em casa ( os filhos e o marido estavam fora ) começou a devanear.

Tanto que ficou o tempo inteiro no quarto sob a cama_ o que fez o marido pensar que esta estava doente.

Tão logo os filhos voltam ao lar, a vida retoma o seu norte e nossa personagem volta ao seu ritmo cotidiano, apenas desmanchado por um encontro de negócios entre seu marido e respectivo chefe. Embriaga-se e desenvolve muita prosa com o chefe do marido_ em verdade enciumava a beleza da vestimenta de outra mulher no recinto e isto feriu-lhe a vaidade.

Ao chegar em casa repensa sua própria sensualidade e o desejo que podia despertar nos homens. "Amor"

Ana_ urna mulher casada, pacata e mãe de dois filhos, tinha uma vida doméstica muito calma, donde cuidava dos seus com o esmero e amor típicos de uma pessoa fraterna e

sensível. Aliás Ana, em hebraico significa "pessoa benéfica, piedosa".

Certo dia ao ir às compras encontrou-se com um cego que muito a impressionou; com a freada brusca do bonde onde se encontrava_ os ovos que carregava acabaram quebrandose_ pronto! A sua paz tão duramente conquistada desapareceu.

Transtornada acabou por descer no Jardim Botânico que por sua beleza fê-la temer o próprio inferno. Aqui podemos fazer um paralelo entre a beleza que salta aos olhos e o cego

que está privado disto_ este último vive o próprio inferno em terra. Esta então é a explicação de tanto que impressionara a personagem.

Ao voltar para casa sentia que alguma coisa havia mudado dentro de si, abraçou o filho tão fortemente que o assustou e foi ajudar o marido quando este derrubou o café.

Carinhosamente este pegou-lhe a mão e levou-a para o quarto para dormirem.
"Uma galinha"

Uma galinha de domingo, pronta para o abate. Contudo quando apanhada pelo pai da menina que é a narradora da estória, a galinha acaba pondo um ovo_ imediatamente a menina avisa os demais familiares do fato e alerta-os para a nova condição de "mãe" da galinha.

O pai de família, sentindo-se culpado por tê-la feito correr para o abate, acaba por nomear a ave como de estimação sob pena de que se o animal fosse sacrificado nunca mais voltaria aalimentar-se da galinha.

Contudo, houve um dia em que "mataram-na, comeram-na e passaram-se anos."
"A imitação da rosa"

Laura, casada e sem filhos, preparava-se para um jantar na casa de amigos. Era a primeira vez que ela faria isto desde que voltara do hospital, onde fora internada. Provavelmente, por causa de um surto. Ela pretendia estar pronta, de banho tomado, em seu vestido marrom, a casa limpa e a empregada despachada, quando seu marido, Armando, chegasse. Assim teria tempo livre para ficar à disposição dele. e ajudá-lo a arrumar-se.

Laura parecia perseguir a perfeição a todo custo, vigiava-se para ser uma esposa modelo, submissa e obediente, mediana até na cor dos cabelos, nem loura, nem morena: de modestos cabelos marrons. Ela procura parecer normal, premedita todos os seus gostos. Não quer que os outros se preocupem com ela. Pensa o quanto seria bom ver o marido enfim relaxado, conversando como amigo, no jantar, sem lembrar-se de que ela existe.

Exausta e feliz, pois acabara de passar em ferro todas as camisas de Armando. Laura sentou-se na poltrona da sala e cochilou um breve instante.

Quando acordou, teve a sensação de que a sala estava renovada.
Admirou intensamente as rosas que comprara pela manhã, na feira. Eram perfeitas.

Resolveu então dá-las á amiga que iria, à noite visitar. Estava decidido, mandaria as flores pela empregada. Mas, logo depois, Laura hesitava. Por que as rosas, tão bonitas, não podiam ser dela mesma? Por que a beleza e exuberância das rosas a ameaçava? Acabou cedendo-as, a empregada levou as flores, e ela não conseguiu voltar atrás.

É provável que a perfeição que Laura vira nas rosas tivesse lhe provocado o impulso de romper novamente com seu lado submisso e servil para se tornar incansável. super- .humana, independente. tranquila, perfeita e serena.

Quando o marido chegou do trabalho, Laura ainda estava sentada na poltrona, e nada tinha feito do que planejara Dirigiu-se a ele: "Voltou. Armando. Voltou. (..) Não pude impedir. disse ecla, e a derradeira piedade pelo homem estava ria sua voz, o último pedido de perdão que já vinha misturado à altivez de uma solidão já quase perfeita. Não pude impedir.

repetiu, (...) Foi por causa das rosas, disse cor,, modéstia(...) Ele a olhou envelhecido e curioso.

Ela estava sentada com seu vestidinho de casa. Ele sabia que ela fizera o possível para não se tornar luminosa e inalcansável.
"Feliz aniversário"

Tudo preparado para o encontro anual da família. Na casa de Zilda, a única filha, as bolas coloridas espalhavam-se pela sala e o bolo confeitado enfeitava o centro da mesa. Na

cabeceira, arrumada e perfumada com água de colônia para disfarçar o cheiro de guardado, estava Cornélia, a matriarca e aniversariante que completava 89 anos.

Primeiro chegaram as noras com os netos, depois os filhos. A velha. sentada. impassível, se perguntava como ela, tão forte, pudera gerar uma família tão medíocre.

Cantaram, parabéns atrapalhados todos fingiam entusiasmo, incapazes de uma alegria verdadeira A velha foi ríspida o quanto pode. Escandalizou os presentes e envergonhou
Zilda, cuspindo no chão.
Temos o retrato de uma velha amargurada pela morte do filho que admirava, e o desprezo por todos

os demais é oriundo neste fato. É preciso observar que Cornélia é a matriarca de todo o clã e seu
nome é de acepção latina e significa duro, forte.
"A menor mulher do mundo"

Encontrada no coração da África, por Marcel Pretre, um caçador e explorador, a menor mulher do mundo tinha 45cm e era escura como um macaco. Vivia numa árvore com o seu concubino e estava grávida.

A sua foto, tirada pelo francês, na qual ela aparecia em tamanho natural, foi publicada em jornais de todo o planeta despertando nas famílias o desejo de possuir e proteger aquele pigmeu do sexo feminino, ser humano em miniatura.

Os selvagens Bantos, conterrâneos da menor mulher do mundo, adoravam capturar e comer aquelas miniaturas. As crianças queriam a mulher para brincarem de boneca.

"Mamãe, se eu botasse essa mulherzinha africana na cama de Paulinho enquanto ele está dormindo? Quando ele acordasse, que susto, hein", disse um menino. Sua mãe olhava-se no espelho e enrolava o cabelo quando ouviu isso, Lembrou-se de uma história contada pela empregada, que passara a vida num orfanato.

As meninas da instituição não tinham brinquedos. Um dia, uma delas morreu, e as outras esconderam-na das freiras no armário. Quando não estavam sendo vigiadas, pegavam a defunta como se fosse uma boneca, davam-lhe banho, penteavam-lhe os cabelos botavamna de castigo, punham-na para dormir... Pensando nisso a mulher considerou cruel a

necessidade humana de amar e possuir, a malignidade de nosso desejo de ser feliz, a ferocidade com que queremos brincar.

A alma das famílias queria devotar-se àquela frágil criatura africana. Enquanto isso, a própria coisa rara, a menor mulher do mundo, grávida, sentia o seu peito morno de amor.

Amava e ria. Amava o explorador amarelo, a sua bota, o seu anel brilhante. Amava e ria, e deixava o homem grande perplexo. Pequena Flor, era assim que o francês a chamava, sabia

que o amor era não ser comida pelos Bantos, era achar uma bota bonita, gostar da cor do homem que não é negro, e rir.

O explorador não entendia o amor que lhe saía por aquele riso. Ele, que já conhecia um pouco da sua língua, fazia-lhe algumas perguntas, às quais Pequena Flor respondia "sim",

"Que era muito bom ter uma árvore para morar, sua, sua mesmo, ~ pois é bom possuir, é
bom possuir, é bom possuir."
"O Jantar"

Num restaurante, um homem observa atentamente um velho a comer. Ambos não se conheciam. A brusquidão e a dureza do velho chamaram a atenção do homem, que lhe vigiava cada gesto. Até que o homem, extasiado, e sentindo certa náusea, percebeu no velho uma lágrima. Então, não tocou mais no prato, enquanto o velho terminou a sua refeição, comeu a sobremesa, pagou a conta, deixou uma gorjeta para o garçom e atravessou o salão, luminoso, desaparecendo. O observador medita: "eu sou um homem ainda."

"Quando me traíram ou assassinaram, quando alguém foi embora para sempre, ou perdi o que de melhor me restava, ou quando soube que vou morrer eu não como. Não sou ainda esta potência, esta construção, esta ruiria. Empurro o prato, rejeito a carne e seu sangue". 'Preciosidade"

Ela era uma estudante de 15 anos, não era bonita, mas tinha sua preciosidade. A mocinha, protagonista deste conto, atravessará este estado transformando-se em mulher, rito em que se dará a perda do que lhe é precioso possivelmente sua virgindade.

Acordava muito cedo para ir à escola, precisava tomar um ônibus e um bonde, além de caminhar até o ponto. O caminho era difícil, não gostava que a olhassem. Andava rígida,

severa, não admitindo sequer que os homens no ônibus ou os rapazes na escola pensassem nela. Mas o barulho de seus sapatos com saltos de madeira chamavam a atenção de todos, o

que a perturbava terrivelmente. Ela era inteligente e aplicada nos estudos (uma maneira de ser respeitada e manter os homens afastados), À tarde tinha em casa apenas a companhia
dos livros e da empregada

Certa manhã, ao sair para a escola, só na rua percebeu que ainda estava mui
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